coisinho

procurei por toda a parte. remexi malas, sacudi casacos.
nada. 
aquela mania de trocar as coisas do sítio, ou trocar o sítio às coisas. 
se calhar deixei no carro, vejo amanhã.
é sempre amanhã, já há um mês que era ontem e ainda não tenho comigo o que queria.

“desculpa, eu sei que não perdi”
tanto quanto sei, ou melhor, sei de cor, odeias desculpas
“não peças desculpa, só não o tornes a fazer”.

Fosse a Mariana ter uma máquina de saudades,
como se fosse preciso
algo que produzisse em massa um sentimento que me diz “bom dia” a cada dia que passa.
Poderá algo mecânico, produzir uma “coisa” desse tamanho?
Não é coisa,
tenho que largar este vício de tratar as coisas importantes por coiso e coisa e coisinho ou coisinha como se fossem “coisas” insignificantes.
porque não são
.
Por vezes só não me surge o nome rápido e coisa serve sempre para identificar algo, mesmo o que não conseguimos”coisar”.
Mas lá estou eu a pôr tudo no mesmo saco e perder-me do que está fora dele.

“Mãããããeeee, viste o…..que estava….(não sei onde) e não encontro?”
Nem sabia que nome lhe havia de dar e não querendo nomeá-lo de coiso decidi gritar outra vez
“esquece, já encontreiii”
menti.
tirei a cama-gaveta, levantei as almofadas e o tapete.
vou deixar de procurar.
acontece sempre isto. se deixar agora de procurar, sei que mais minuto menos minuto aparecerá quase como por magia, aqui, à minha frente.
de certeza.
sentei-me então a bater o pé. aquilo fazia-me falta e apesar de todos os avanços na tecnologia, nenhuma máquina me daria aquilo.
tinha que ser eu. mas confesso que por vezes também tu me podias dar uma mãozinha. ou um , ou um (a)braço.
aposto que estavas sentado como eu neste momento. a (d)esperar.
mas tu és mais aluado, por isso, mesmo que não encontres, não vais procurar mais.
porque aparece-te sempre tudo. vindo sabe-se-lá-de-onde.

fui à cozinha, procurei no forno, na data de validade do leite, na máquina de lavar roupa.
nada. 
já nem a roupa tinha aquele cheiro.
“os cereais!” tenho a certeza que está na caixa dos cereais.

não, nada. 
“já não tinhas encontrado?”
“sim”
“então estás à procura de quê?”
“de outra coisa que não encontro”.
se não fosse minha mãe, tinha medo que me julgasse maluca, ou então já a minha mãe se conformou com essa ideia de que o sou mas que gosta muito de mim à mesma.

procurei nos cadernos e caderninhos que fui acumulando quando entro “sem querer” numa lojinha. apaixono-me sempre por cadernos.
foi uma forma que arranjei já há um tempo para poder falar contigo. sempre sem resposta da tua parte. mas a isso já me habituei, ou habituaste-me tu. à força.

também não estava no carro,
nem mesmo no tablier que está cheio de carregadores e caixas de creme vazias.
(“cheio”. apesar de não ser assim tão grande, consigo dar-lhe um espaço maior com a quantidade de coisas que consigo acumular nele). nunca as deito fora para voltar a comprar iguais, como se não soubesse de cor que produtos ponho na cara. mas custa-me sempre deitar fora as (não digas coisas outra vez)…os pertences que me fizeram falta e me vão continuar a fazer mesmo que tenham chegado ao fim. verdade seja dita que não procurei no porta-bagagens. esse mais parece que sofreu um ataque epilético desde o dia em que nos encontrámos. nunca mais foi o mesmo, confesso. eu tentei procurar lá, mas nunca se encontra nada no meu porta-bagagens por isso foi como se nao tivesse procurado.
quando levo alguém comigo com mais bagagem que o habitual sinto-os logo a preparem-se para me perguntar “posso por isto lá…” apresso-me a gritar “NÃO!”  e remato logo a seguir com a frase da praxe “Desculpa, podes tentar pôr, só não acredito que consigas porque acabei de por lá as minhas muitas malas também” a verdade é que as pus desde o dia que tenho o carro mas nem toda a gente precisa de saber e já tenho essa frase encenada ao pormenor. acreditam sempre.

voltei a entrar em casa e a minha mãe estava sentada no sofá, a bater o pé, tal como eu tinha estado há uns largos minutos.
“estás à procura de alguma c.. de algo?”
costumas procurar “algos” assim sentada à espera? normalmente só por milagre é que aparecem desta forma.” 
“costumo” – respondi-lhe.
o olhar que me lançou teve um significado do género trouxe-ao-mundo-uma-criatura-um-tanto-ao-quanto-estranha-mas-é-minha-filha-o-que-é-que-eu-posso-fazer-?
“quer dizer, não costumo. costumo só procurar muito e quando sinto que já procurei muito, sento-me assim como estás agora a pensar onde poderei procurar ainda mais que muito”
“cala-te” disse-me a minha cabeça como um gesto solidário.
O segundo olhar que a minha mãe me lançou soou a dizes-mais-uma-dessas-e-deserdo-te-na-hora!

Comecei a ler o que me tinhas escrito quando começámos a namorar. agora são as mensagens através do telemóvel. verdadeiras provas de amor ao deitar e ao acordar. promessas entre talheres, chuva e trânsito. não te cansas. nem eu. parece que preciso de relatórios de entregue e recebido para sobreviver.
Nem sei como é que os meus pais conseguiram, à janela e ao acaso, em cartas que o meu pai lhe escrevia por entre a guerra sem saber sequer sequer se tinham chegado intactas à minha mãe. nessa altura era muito mais romântico. Talvez por ser mais incerto? Ou mais desgastante.
Era mais romântico porquê? porque as pessoas era diferentes?
Como é que o meu pai na guerra conseguia estar descansado? Peço desculpa, não imagino o que seja, mas consigo calcular que ninguém na guerra consiga estar descansado. Queria antes dizer “certo” . como é que o meu pai estava certo de que a minha mãe estaria ali (que era longe dele) quando voltasse. Podia não estar, é um facto. só esteve porque na verdade a minha mãe é uma romântica. Ou tinha paciência.
eu teria?
penso por instantes.
odeio esperar. mas se recebesse cartas das que o meu pai escrevia, tenho a certeza que além de palavras recebia com elas uma dose de paciência imortal.

Nem hoje é certo que seja certo. e como queremos. a  mensagem ser entregue não significa de todo que ele se entregue a ti a 100%.
(certo?)

continuei a busca.
tinha uma pestana no olho.
“logo agora”
cocei, virei os olhos para cima, para baixo, para o lado e para o outro. aquele movimento de convulsões que tendemos a imitar sempre que algo nos entra para os olhos.
piscava, ardia, fechava, abria.  
corri para o espelho. e, tal como tinha dito há umas horas atrás, voltava a acontecer: quando deixamos de procurar, voilá. encontra-se, nao é?
assim que me olho ao espelho, lá estavas tu, com aquela postura de quem esteve sempre ali e eu parva não reparei.
e percorrias tudo, como se a gozar comigo por não ter reparado: as minhas pestanas, o nariz, a boca, os dentes e o queixo. estavas na minha cabeça, como quando os ceguetas procuram os óculos e passado um tempo descobrem que os deixaram onde os tinham deixado todas as outras vezes: na cabeça.
não dava para fugir nem sequer para deixar de encontrar: estavas na minha cabeça. e daqui não sais que eu não deixo.
e sei que posso perder todas as minhas outras c…objetos, mas que a ti não te perco.
dito isto, apercebi-me que também a comichão tinha deixado de me incomodar.
se calhar porque deixei de a procurar, como desculpa para esquecer qualquer outra.. coisa.

2 thoughts on “coisinho

  1. Existem sempre “coisas” que não esquecemos.
    Fiquei muito feliz que tenhas voltado a escrever. Não perdeste o jeito.

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