Quando me tiraram as rodinhas da bicicleta

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Acordo cada vez mais com a certeza de que o meu quarto é o melhor lugar do mundo para viver. Não há nenhum outro lugar no mundo comparável àquele que é nosso. Tem pai, tem mãe. Tem todos os sentimentos de pai e tem todos os sentimentos de mãe. Tem roupa lavada mas também “roupa quase a chegar ao teto”. Tem histórias, desabafos escritos nas paredes (ainda que contra a vontade da minha mãe). Não tem sapatos, mas tem cabides soltos, maquilhagem em cima da tv, recados em livros como lembretes que acabo sempre por esquecer e coisas que nunca deito fora porque hei-de sempre precisar delas ainda que até hoje nunca tenha precisado. Tem  sempre a mesma imagem quando o abandono e o mesmo cheiro quando regresso.
O meu quarto é mais ou menos como Lisboa, ou tende a comportar-se da mesma maneira para que eu não estranhe quando saio à rua. Ver o Tejo faz-me crer que a minha cidade é maior da ideia que sempre tive , ainda que encontre pessoas vindas sabe-se-lá-de-onde que acabam por ter sempre algum qualquer amigo ou parente mais afastado em comum comigo. E isto não acontece apenas por termos a mania das grandezas, ainda que se justifique o facto de as termos. Conhecemo-nos mesmo, ainda que superficialmente.

Acordo cada vez mais com a certeza de que o meu quarto é o melhor lugar do mundo para viver.
E começa a ter saudade também. Uma mistura, um sentimento idêntico ao de quando me quiseram tirar as rodinhas da bicicleta: é melhor ficar sem elas para ganhar mais equilíbrio mas… e se caio? Comecei então a perceber que posso fazer do mundo a minha casa ou até mesmo tornar a minha casa no mundo. Também ele com roupa pendurada, com sentimentos de pai e de mãe agora através de longas chamadas pelo skype. A nova morada sempre na carteira para o caso de me perder em qualquer beco onde não há vestigio algum de latim. Novas comidas e até novos desabafos em paredes e novas paredes também. Que nada têm de minhas. Nada têm de meu. Mas que a partir de agora as posso alugar por um x período de tempo, entre contratos de habitação complexos e contas para pagar ao final do mês.

Prefiro pensar que tornar o meu quarto no mundo pode ter tanto de complicado como de engraçado
. Viver num mundo em que se pede um café e nos dão leite, e que em vez de água nos dão vodka. Que nos dão detalhes de algum bom lugar para visitar mas que a complexidade linguística parece que em vez disso nos repreendem e por isso passamos por mal educados, ao virarmos as costas. É pensarmos que as pessoas são malucas quando mexem os braços, sendo elas as pessoas mais amáveis de sempre. É dizer “quero 3 baguetes” e darem-nos 10 por o som da palavra três ser identico ao da palavra dêz. Se calhar é passar a reparar nos avisos ao pé do elevador, aquele que tanto conhecemos “in case of fire not use the elevator” que numa qualquer outra lingua julgamos ser uma avaria e passamos imediatamente às escadas. Nem tudo é mau, as 400 escadas que subimos durante a primeira semana fizeram-nos bem. Depois sem querer damos de caras com um vizinho que amavelmente nos pergunta se vamos subir também. Achamos nós que acabou de dizer algo desse género, pode até nem ter perguntado isso mas sentimo-nos contentes pela simpatia do  senhor e percebemos que aquele aviso é um aviso tão comum a outros avisos, voltamos a não reparar  nele nos restantes dias e meses e já abrimos a porta de casa a conseguir respirar como deve ser. Regatear numa loja cara que considerávamos incompatível conseguir metade do preço em apenas uma frase. Perguntar onde pára o autocarro tem a dificuldade semelhante à resolução de uma equação de x e y sendo o x o apontar do dedo e o y “é para ali, nunca se sabe muito bem onde decidem parar”.
É reaprender o conceito de saudade. Transportá-la diariamente num peso incomparavelmente maior àquele que a nossa mala registou no check in, que verificou viagem só de ida. É tentar abrandá-la com um simples click no whatsapp, é fazer likes como sinal de vida e sinónimo de que estou num free wifi zone. É reler recados antigos e postais dos nossos amigos. É reaprender o conceito de amigo também. É dar novos conceitos à palavra vida e acrescentar vida a cada conceito novo. É sermos tartaruga, em que o tempo parece que nunca mais passa porque nunca desligamos do que tinhamos por termos que andar sempre com o que é nosso para todo o lado. Acordar ao sábado de manhã com vontade de percorrer 50km desde que depois de os percorrermos tenhamos chegado aos Pastéis de Belém, sem sequer nos importarmos se vai haver muita fila.
Saudades incomparáveis, encurtar os milhares de quilómetros através de um viber e sorrir a chorar ao mesmo tempo que choraramos a rir. É assistir a momentos e datas especiais através de uma videochamada enquanto vemos os mais novos da familia a não perceberem bem o que se está a passar e os mais velhos a quererem perceber melhor o que está a acontecer.
Já tirei as rodinhas. Resta-me pegar num mapa, como quando havia mais dinheiro e se fazia para escolher o próximo destino de ferias, e ir.
Acredito que mais dificil que ir, é ir de novo depois de voltar.

Porque é bom ir.  Mas é muita bom voltar, não é?

2 thoughts on “Quando me tiraram as rodinhas da bicicleta

  1. É sem dúvida mais fácil ir do que voltar. Voltamos com outra bagagem, com a mala mais cheia. Mas o coração também vem mais cheio..

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