aqui vende-se amor.

wall_of_love_by_thegenomeAs quatro paredes daquele t4 eram a sua única e “feliz” companhia desde há 25 anos. Sabia-as de cor, onde tinham falhas, o que em tempos tiveram escritas a duas mãos e até mesmo qual a parede mais fria onde se podia encostar em dias insuportáveis de calor. Desistiu. Desistiu desde aquele dia. Aquele que afirma ser o pior da sua vida, mesmo que muitos mais dias venham a existir.
A casa era grande demais para ele e incrivelmente pequena para a tristeza que transportava, de pés a arrastar, por aqueles 570 metros quadrados. A inconformidade dos seus dias deu contorno a memórias desfasadas, dispersas entre momentos a dois que não se iriam mais repetir, e que viriam um dia próximo a ser três. Próximo há 25 anos atrás.
Garrafas, escritos por entre rótulos e guardanapos gastos, beatas que mostravam o passar do tempo num cinzeiro que serviu para outras andanças noutros tempos. Era assim que vivia, por entre os quadros sempre tortos que davam a sensação de um “tanto me faz” desleixado e a roupa lavada em monte que lhe levavam às terças-feiras garantiam a sensação de um “não quero saber” ainda mais despreocupado que a própria frase “não quero saber”.
Sair de casa era impensável, tendo-o feito apenas uma vez desde há 25 anos, por achar ter ouvido a voz dela lá fora. Só ela parecia ser capaz de dar movimento a qualquer membro dos que tinha quase mortos. Não era a voz dela. Não era ela. Nem nunca mais seria.
Ainda que habitasse uma zona turística, não sendo a palavra habitar a mais adequada àquele modo de quase-vida quase-morte, nunca se cruzava com ninguém. A não ser com ela, por entre fotografias que tinha por toda a parte. Uma espécie de amor colecionável e toda a gente sabe como os colecionadores são obcecados pelo que colecionam, agora imaginem se se tratar de amor. Via e revia as gravações de vídeo que tinha guardado dos seus aniversários, e pagava a conta da eletricidade simplesmente para que o pudesse fazer. E nada mais interessava. Tinha decidido viver com ela o resto da sua vida, e era assim que queria continuar a (sobre)viver, tal como lhe tinha prometido. Até um dia.
Em que, numa brincadeira de adolescentes, uma mensagem se tornou local de captação fotográfica para todos. “Aqui vende-se amor” – estas eram as palavras que tinham sido graffitadas no muro da sua casa, numa tarde de outono que fazia parecer verão. E foi a Rita, a primeira a cair na brincadeira. Bateu uma. Duas. Três. Não vinha ninguém e o ar abandonado e cansado da porta fê-la também ganhar a ideia de abandonar aquele lugar. Tentou pela janela, fez mais força do que aquela que pensava ter, e conseguiu, Estava aberto e cheirava a “velho” – pensou. Para a Rita, havia muitas coisas que cheiravam a velho. Era uma descobridora incansável por coisas novas, longe de monotonias, e isso fazia com que tudo o que já tinha visto parecesse ter surgido há anos. Não apareceu ninguém. E então decidiu gritar:

“Olhe desculpe, é aqui que se vende o amor?”– sentiu um género de eco mas ainda assim não desistiu e voltou a gritar
“Olhe, diz aqui no seu muro que o amor está à venda. E que é aqui que se vende. Desculpe lá, mas é que eu nunca vi ninguém vender o amor” – fez uma pausa e pensou que, se calhar, nem nunca tinha visto o próprio, o amor. E retomou:
“É que eu sou escritora, ou pelo menos é assim que defino a minha profissão, e gostava de escrever sobre isto. Esta coisa do amor de que todos falam. É que o amor ainda vá, mas esta coisa de se vender.”

A insistência dos gritos numa casa em que nunca se ouvia nada, fê-lo mover-se. Levantou-se e, pela primeira desde há 25 anos, voltou a sorrir quando a viu ao longe. Os cabelos tinham exatamente o mesmo tamanho que os dela. As suas formas e a humildade de criança como quem vai à procura de algo que não conhece, deram-lhe coragem para continuar em frente e tentar, pela primeira vez desde há 25 anos, falar com alguém.

“Desculpe? O amor?” – perguntou-lhe ele.
“Sim, o amor, não sabe o que tem escrito na sua própria casa?”
“Eu já não vivo aqui” – respondeu-lhe.
“Como não vive aqui? Eu não lhe venho vender nada, não precisa de me tentar despachar com essa de já não viver aqui. Só queria escrever sobre isto.”
“Sobre isto? Isto o quê?”
“Sobre esta história do amor se poder vender. Vende-se como? Ao quilo, ao metro? O amor tem peso?

Ele olhou para o muro da casa com os olhos meio fechados, pelo efeito da luz que já não via há muitos anos e disse-lhe:
“Se quer perceber disso do amor, convido-a a entrar. Mas não entre pela janela, porque parece que me está a assaltar a casa e a última coisa que quero é que me assalte a única coisa que ainda me resta”.

E assim que a Rita entrou, percebeu. O amor não estava à venda ali, estava exposto, em cada centímetro de chão, de parede, de fotografia, de quadro. Até parecia que já não cheirava a velho. Afinal o amor tem entrada gratuita – pensou ela. E está aos olhos de toda a gente que o quiser ver. Não pegou no lápis nem no bloco, e nem sequer teve vontade de fazer perguntas como fazia sempre que ia a algum sitio novo. Só olhou. E umas horas depois, só foi capaz de lhe dizer uma coisa:

“nunca venda o seu amor. a ninguém.”
Ele baixou a cabeça e suspirou. E ela repetiu:
“ouviu? a ninguém.”
Ele levantou a cabeça e respondeu:
“ouvi”. 

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