Os homens não comem salada mas as desequilibradas somos nós.

Nunca hei-de compreender aquele maldito gene que, de forma genérica, nos torna tão diferentes do outro género. A verdade é que além da curiosidade súbita em certo tipo de comportamentos a eles associados, pouco ou nada me desperta na subtileza com que não-lidam com as coisas. Aprendi a respeitar que são diferentes, e a diferenciar esse comportamento não como algo mau, mas simplesmente como tal: diferente. Isto porque esta matéria foi dada lá em casa pelo meu pai.

A pergunta “Queres salada?” normalmente dita pela voz de uma mulher, seja ela mãe ou avó, tem inevitavelmente como resposta a palavra “não”, pela boca de um homem. É mais ou menos como perguntarem a uma criança se quer legumes quando tem batatas fritas à frente, sendo o género masculino uma criatura não muito distante da que acabei de referir.

Tenho dois homens na minha vida com quem lido diariamente, sou uma sortuda eu sei, e que apesar das idades distantes aproximam-se demasiado pelo feitio irritante de tão calmo e despreocupado que é- tentam eles, pelo menos, torná-lo assim.

O primeiro homem da minha vida, por exemplo, a comer salada parece uma criança a comer sopa, e chega a dizer coisas como “já comi 3 vezes” como se já tivesse feito um grande feito à mesa, e ainda por cima com apenas um garfo. 3 garfadas é coisa de homem, nem nunca na vida se inferiorizava ao ponto de dizer que comeu apenas uma. E acho bem, porque o facto de ser meu pai, faz com que não tenha autorização para ficar abaixo dos outros do seu “género” muito menos em cima de uma toalha tradicional que se suja de vinho e comida constantemente. É o rei cá de casa a comer pepino, nem que seja pelo facto de ser preparado apenas para ele, visto nenhum membro familiar feminino partilhar o mesmo gosto. E fazerem uma coisa só por nossa causa é mesmo à homem, ou não? Já estou a imaginar, em conversas que nós achamos sempre que eles têm com os amigos, entre copos e gabanços másculos e nojentos “A minha mulher faz pepino só para mim”Arriscava até dizer que o meu pai esperou 30 e tal anos para concluir qual o legume que ia tornar como o seu preferido. E depois chegou aquela altura em que eu aprendi a falar e a ter gosto próprio. E foi aí que disse que pepino não era a minha cena. Estou mesmo a imaginar o meu pai, a pensar de imediato que, homem que é homem, gosta daquilo que as desequilibradas das mulheres não gostam, não vão eles ser equivocadamente comparados a nós. Até aposto que devo ter isso registado naquele livro de bebés em que se regista tudo-o-que-não-interessa-para-nada-nem-nunca-ninguém-vai-ler: a primeira palavra que dissémos, o primeiro banho, o primeiro cocó, o primeiro dente a nascer e o primeiro a cair. Enfim. Não me surpreendia se o meu pai tivesse acrescentado o separador “a primeira vez que a Mariana disse que não gostava de pepino” a esse meu livro. E tem todo o direito, no meio de tanta porcaria que se põe como primeira que nem sempre o é, porque aposto que os pais não se lembram ao certo de tudo, porque não falar de legumes? Além disso, em vez de dizer apenas que “a minha mulher faz pepino só para mim”, já podia gabar-se também que “cheguei a acrescentar ideias ao livro de bebé da Mariana”. E que honra, han?  O outro tão importante homem da minha vida gosta de salada de tomate. Só de tomate. Porque tudo junto já torce o nariz, já não é muito à homem. Tomates é mais a cena deles, salada é para meninas, as constantes desequilibradas que procuram equilíbrio em todas as coisas “procuráveis”, saudáveis, etctáveis. Mas é engraçado como os homens são tão homens como a própria controvérsia que transportam. Porque depois arranjam as unhas e depilam-se. Haja tomates para o fazer, numa sociedade em que homem que é homem não o faz mas, contradizendo as leis da natureza, e não as máximas da mesma, já é aceitável – “tu aguentas a dor? ca ganda homem”. Mas há coisas e coisas, a primazia da diferença não entra em jogo em tudo. Quando chegamos ao tema “uma alimentacao equilibrada e 2 litros de água por dia” isso já é coisa de gaja, nós que nunca trabalhamos muito aos olhos deles e que por isso, temos tempo útil e inútil para nos preocuparmos com coisas como essas. Que, segundo os médicos, até são importantes e fazem sentido mas, homem que é homem, sabe sempre mais que os médicos. Sabe sempre tão mais que eles que vê-los mais do que uma vez ao ano, ou de dois em dois anos, é um exagero.  O meu pai por exemplo está sempre bem de saúde, apesar de eu realmente não conseguir verificar nenhuma diferença nem o ver mal (ainda bem!), ele orgulha-se de dizer isso. Nunca vai ao médico, mas tem 100% de certezas que está tudo bem, as plaquetas, o ferro, a tensão – que às vezes até se auto medica, tudo impec. Nós, as desequilibradas, é que temos tempo suficiente para perder em salas de espera cheias de velhos e crianças aos berros, engraçado como em velhos os machos já se dignam a estar sentados na mesma sala espera que nós. Calculo que esta ausência de identidades de saúde na vida deles esteja associada, talvez, com algum tipo de medo a vacinas ou tratamentos. É que essas vacinas são dadas maioritariamente por enfermeiras. Mulheres, portanto. Alguma mulher que, pelo menos naquele campo, sabe mais do que eles. As desequilibradas, só uma pessoa desequilibrada trata das doenças dos outros, óbvio. Seres com tempo livre a mais, só po-de. E sejamos sinceras, ficava um bocado mal e demonstrava poucos tomates, um homem inferiorizar-se perante uma fêmea enquanto chorava por a vacina magoar ou por ter que gritar, depois de tantos minutos em sofrimento silencioso, que não consegue ver sangue. E nós confirmamos o nosso desequilíbrio ao responder-lhes “a mim também me faz confusão, não olhe agora”. FALSO! São estas mulheres que se podem gabar de ter uma profissão capaz de os rebaixar, essas que podem orgulhar-se de o fazer, não fazem, nem tiram qualquer tipo de gozo disso. Eu não posso, mas adorava que me entrasse um homem pelo consultório a dentro com o rabinho encolhido.
“Então meu gabarolas, deixaste os tomates na sala de espera com que senha?” “Dói? Mas és um homem ou um rato?” “Não consegues ver sangue? Mas os homens não aguentam tudo?”

Mas confesso que eu sou um bocado desequilibrada, apesar de viver bem nesse desequilibrio e equilibro-me com o facto de que todas as mulheres o são. Nao é à toa que as mulheres adoram a palavra saldos. Entra-nos no ouvido como qualquer outra palavra doce. Os homens também se vestem, também têm que comprar roupa, mas nós vemos nisso algo que nos possa deixar melhor, física e psicologicamente, porque somos todas umas desequilibradas e deixamos que qualquer tipo de objeto se apodere de nós de modo a fazer desaparecer isso, ou suavizá-lo pelo menos, perante a sociedade. Eles compram computadores e qualquer peido de gadget que aparece, “para trabalhar”. E nós? Nós também compramos sapatos para trabalhar, ou para irmos trabalhar, mas sorrimos e dizemos que somos loucas por compras e não aguentámos mesmo, tivemos mesmo que comprar. Reparem que este mesmo demonstra logo desequilibrio. Foi mesmo por causa de alguma coisa, não por nossa própria vontade. Porque há mesmo sempre qualquer coisa mais equilibrada que nós. Eles esperam pela melhor peça que vem de sabe-se-lá-de-onde para a ter, às vezes meses. Nós queremos ter de imediato, na loja da esquina mesmo que a qualidade não seja tão boa. Porque somos umas desequilibradas. E as que não o assumem, são ainda mais desequilibradas que eu. E depois chega essa peça eletrónica passado 1 mês, parecem umas crianças acabadas de ver o pai natal, ficam mesmo felizes. Que inveja. Nós ficamos felizes com a nossa roupa na primeira semana, depois até deixamos de usar porque a otária que trabalha ao nosso lado tem um top ou umas calças mais giras que aquelas que acabámos de adquirir. DESEQUILIBRADA! Ela e eu. Nenhuma se safa.
Mas depois há também aqueles homens, supperrrrr parecidos connosco. Mas não sao homossexuais, são apenas homens que dizem que se preocupam consigo próprios e que essa preocupação não tem de todo a ver com a sua sexualidade e que é bom porque traz bem estar físico e psicológico associado. Esses já fazem parte de um grupo à parte “que só sabem as coisas porque têm um amigo médico” – importante que mesmo estes têm dificuldade em assumir consultar um. Estes já comem salada, porque “estão a tentar mudar os seus hábitos alimentares” nunca é porque sim, porque gosto. F**, terá assim a salada um sabor tão detestável que nenhum homem, que gosta de feijão, chilli e toda a m*** picante cheia de sabor, não é capaz de assumir que gosta? É que além disso, esse é aquele tipo de grupo que fala das namoradas com os amigos, os outros preferem falar das mamas e rabos alheios. Demonstra muito mais tomates cobiçar o que não é teu do que falares do que tens em casa cheio de romantismo. Os apaixonados são visto como os mesmos que comem salada porque “estão a mudar os hábitos alimentares”. Homem que é homem faz questão de puxar a garganta para cima, e cuspir fora do prato. Salada é que não!
Mas isto sou apenas eu a pensar alto, porque sou uma desequilibrada e como salada, não porque gosto mas apenas para ver se consigo trazer um pouco de equilibrio à minha vida.

Image

 

3 thoughts on “Os homens não comem salada mas as desequilibradas somos nós.

  1. Há uma coisa em que ambos os géneros, estejam ou não acompanhados de salada, estão de acordo: na generalização dos contrários.

    As mulheres gostam de colocar todo esse grande género que são “os homens” num panelão. Limam-lhes as diferenças, anulam-lhes as particularidades e tornam tudo numa massada de maçadas – “os homens são todos iguais”. Como é óbvio, cada qual tempera esse prato que são “os homens” à sua maneira e consoante a sua experiência, apenas com a certeza que, a forma como diferem dos homens na forma de ver a vida, é dos poucos temas em que se arranjam consensos entre mulheres a falar do género masculino. Não digo que a razão não exista diluída em certas partes, por exemplo no cariz mimado à mesa que muito homem acima dos 30 tem graças ao colo da mãezinha. Também digo que hoje em dia, muitas são as mulheres que cresceram mimadas à mesa pelas suas mãezinhas. Mas eu sou homem e lá tinha que arranjar maneira de dizer que as mulheres falham tanto (ou mais) que nós. Somos todos iguais.

    Os homens, mais parcos de raciocínios, tirando naquilo que realmente os apaixona e aí difícil é calá-los, alinham no paradoxo “Epá, as gajas são assim, o que queres…”. E assim, nas brasas em cima das quais são mestres a colocar as febras na grelha (literalmente, sem segundas intenções de género feminino), vão desfiando o ror de horrores a que se submetem pelas mulheres, sem que elas reconheçam o seu real valor. Ou então, quando se sentem confiantes, nos truques infalíveis que resultam com qualquer gaja (desde a amiga, à amante, à mulher, à sogra). E, pelo meio dessa infalibilidade expõem todas as suas falhas, pois os homens, quando são todos iguais, começam a falhar a partir do momento em que julgam que não erram. Mas, quando isso acontece, a culpa é certamente das gajas, que já se sabe como são.

    A verdade, se me é permitida a arrogância, é que é a vida que é uma salada, em que se misturam homens e mulheres. E como certas saladas, às vezes a mistura funciona na perfeição, noutras não faz sentido nenhum. Pena que só percebamos isso, depois de estar lá dentro ;)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s