Queres ser minha mãe?


Dizem-me que não posso falar porque não tenho um. Irritam-me as pessoas que o dizem, como se de um supra-sumo se tratassem por as ter, sem importar se sabem ou não cuidar delas. Não, não sei o que é cuidar de uma criança, nem sequer sei o que é trazê-la ao mundo, as dores que se tem no parto, os berros do primeiro dente a nascer, o reagir aos primeiros namorados e aos seus primeiros “quereres” e “bateres de pé”, até entrar na faculdade, formar-se e sair de casa para constituir uma família nova, a família dela, mas ainda assim precisar de mim o resto da vida. Zero. Disto sei zerinho, nadinha. Não sei o que é ter filhos porque não tenho um, tal como ninguém sabia o que era tê-los antes de os ter. Mas quero ter três. E quero ter três com a esperança de que nenhum deles toque em nenhum cromossoma no qual vocês tocaram para vos deixar assim. Não tenho filhos, mas sou filha. Não sei o que é amar um filho mas sei o que é amar uma mãe e um pai, independemente de ser mãe e pai no sentido literário da palavra. Sei o que é amar alguém que nos ama, independemente dos nossos gostos e das nossas vontades repentinas. Sei amar o amor. Sim sei,  porque é isso que os meus pais são para mim e para tantas outras pessoas: a imagem do que temos como amor, primeiro que todas as primeiras necessidades primárias da existência de um ser humano. Vocês sabem? Tenho pais casados há mais anos dos que eu tenho e não sei o que seria de mim hoje, sem eles. E se os meus pais fossem outras quaisquer pessoas eu iria amá-los de igual forma desde que a base dependesse disso mesmo: do amor. 

Tenho muita vergonha do Homem (e de este mesmo ter que levar letra maiúscula no inicio da sua existência, como se fosse merecedor disso apenas por representar a humanidade, e mal) a partir do momento em que ele questiona algo que é, para mim, inquestionável e uma necessidade indispensável para o crescimento. Sabem quando perguntamos a nós próprios se somos felizes? É porque não somos. É porque se ainda o somos, estamos mesmo quase a deixar de o ser. É porque temos dúvidas de o sermos.  A questão está implicitamente ligada à duvida. Sempre. E duvidar se uma criança merece ou não ter uma vida rodeada de amor é crime. A meu ver é crime, mas já vos ouço na minha cabeça, em coro, a pensar  “não podes falar, não tens filhos”. Para mim questionar o amor que é dado a uma criança é como questionarmos se ela tem direito à vida ou não. Quero lá saber da vossa opinião. Quem questiona se uma criança pode ou não ser adotada por um casal homossexual é criminoso. Uma criança quer lá saber. Uma criança quer é amor. Uma criança não cresce sem amor. Nem um adulto, quanto mais uma criança. O amor depende de estereótipos? Desde quando? Há crianças com pai e mãe mas sem amor e que, por essa razão, são disfuncionais, problemáticas e desinteressadas. O cenário melhora? Quantas crianças não conhecem o pai e são mais felizes que vocês, com apenas uma mãe? É o sexo que determina o amor que se transmite a alguém? O importante aqui são as crianças, por isso, ponham os estereótipos num sítio que fica apertado quando fazem asneira, porque o género aqui não desempenha qualquer tipo de papel principal. O que importa são as crianças. E o amor claro, sempre o amor.
Se alguma vez se vissem sozinhos, sem nada, e chegasse ao pé de vocês alguém disposto a dar o melhor de si, sem pedir algo em troca, a vossa resposta surgia em forma de pergunta “tens marido ou mulher?” ou aparecia antes em forma de afirmação desesperada “sim, por favor” como quem espera por algo que lhe devia ser dado à nascença?
Além de ter tido a sorte de ter um pai e uma mãe juntos, na mesma casa, também tive a sorte de crescer sempre rodeada de primos, tanto mais novos como mais velhos. E sim, não sei o que é ter filhos mas sei o que é ter que encará-los como tal por ser o membro mais novo da familia, e por isso, muitas vezes o mais próximo. Eles querem lá saber se tenho uma namorada em vez de um namorado. Nem lhes interessa se alguma vez tive ou quis ter. Eles querem é ter alguém que brinque com eles e que os trate de forma diferente do que trato outras crianças da idade deles, e as quais não me são nada. Eles querem o que todos os membros de uma família com cabeça querem: amor. E o amor dá trabalho. O amor de casa é diferente do amor que podes encontrar na rua, em bares ou em virar de esquinas na hora certa, por dares de caras com a pessoa certa. E é esse amor que uma criança quer, o de casa, aquele que dá trabalho e para o qual nem todos nasceram. Um amor que se diferencia por vir de quem vem, dos nossos pais. Sejam eles biológicos ou não, isso não interessa, é uma representação que todos deveriamos ter. Um amor que se diferencia quando é direcionado a nós, e não aos outros. Eu, por exemplo, hei-de ser sempre a mais fixe, a mais divertida e a mais carinhosa para os meus primos, por uma simples razão: dou-lhes amor. Que, para uma criança, nunca é demais. É de prima, não é de pai, não é de mãe, mas é o mais sincero que eu posso dar. E as crianças percebem isso. Pelos vistos melhor que vocês.
Sabem quando perguntamos a nós próprios se somos felizes? É porque não somos.
(uma criança sem amor não aprende a cantar músicas na escola nem tem vontade de as cantar sozinha, enquanto alguém a filma. uma criança sem amor tem provavelmente muita dificuldade em aprender, e ainda mais a reproduzir o que tentaram ensinar-lhe. uma criança sem amor não pede uma salva de palmas no final da sua “exibição” nem tem vontade de dançar para ninguém, nem que ninguém a veja a dançar. uma criança sem amor não enche as casas ao fim de semana nem no natal, nem em qualquer festividade. uma criança sem amor é a maior prova de que alguém não nasceu para educar ou para decidir alguma coisa relacionada com educação. uma criança sem amor não devia existir, mas há-de continuar a existir enquanto houver adultos sem amor.)

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