A um cérebro encalhado*

Chego mesmo à conclusão que a geração à qual pertenço é mesmo rica em adjetivos e variadíssima em personalidade. Chamam-nos tudo e de tudo, apontam-nos o dedo pelo que fazemos e não fazemos ou devíamos fazer e nem sequer quisémos fazer. Quantas coisas poderia estar a fazer, senhor professor, enquanto criticava quem realmente estava a fazer qualquer coisa?
Desta vez calhou-nos ser a geração “encalhada” e talvez por isso sejamos a mais fácil de atacar ou a mais invejada justificando assim sermos alvos de tanta crítica, e nem nos mexermos para nos defendermos. Cambada de anormais.

Não me sinto superior a ninguém da minha geração porque aliás estamos juntos nem que seja nessa categoria de “geração” e naquela outra de “faixa etária”. Mas envergonha-me que um homem que além de pai é professor, tenha uma noção tão distorcida do conceito de indivíduo. E se não sabe, senhor professor, para mim – ao contrário do que “defendeu”- não é uma seca tentar explicar-lhe isso, mesmo que tenha acabado de postar, agora mesmo, uma nova foto no instagram. O indivíduo é um ser individual tal como a própria palavra o diz. É apenas um. umzinho. sozinho. Há milhões de indivíduos e, por isso mesmo, milhões de personalidades diferentes também por cada um ter a sua. É ele, o indivíduo, o responsável por em conjunto, formar aquilo a que chamamos de sociedade. E é antes de ser sociedade que este tem de ser analisado, senhor professor. (a minha foto já tem 5 likes!).

Senhor professor, eu que sou da geração encalhada que usa o facebook e o instagram (como todas as gerações já o fazem, mas prosseguindo), acho que os puxões de orelhas não se dão em público e, muito menos, em formato html. Porque o que importa aqui não é o número de clicks e de shares mas sim o ensinamento que tentou fazer, correto senhor professor? Gostava de partilhar consigo que levei muitos puxões de orelhas, a minha mãe fazia comigo maratonas de orelha no ar desde a sala até ao quarto, em poucos segundos. Ainda assim, nunca precisou de o pôr à vista de todos como forma de exemplo para terceiros, senhor professor. A orelha já me doía o suficiente para que na próxima vez me lembrasse de não o voltar a fazer. Que importava os outros saberem? Disse também que um dos grandes objetivos da sua “escrita” era alertar os pais desta geração, a minha, a encalhada mas, fique desde já a saber senhor professor, que os meus o acharam um completo anormal (com todo o respeito).

Outra coisa, senhor professor, eu tenho a sorte de pertencer a esta geração por, como disse, ter acesso a infinita informação sem fronteiras mas, e você? Apesar de ter anos a mais que eu não pode ter acesso ao mesmo, se quiser? Se calhar é porque não quer, não? A informação está ao acesso de todos. Mas se calhar o senhor professor encosta-se, não luta, não procura nem tem raça (começo a identificar parecenças com a geração que quis categorizar) e usa essa desculpa que não tem desculpa nenhuma para criticar os outros. Se calhar tem de permitir os cookies e desligar o firewall para que a informação lhe chegue toda, sem que precise de se esforçar. É mais fácil assim, não é? É tão mais fácil assim para si como é facílimo para nós emigrar, não é? Nós os encalhados, que optamos sempre pelo caminho mais fácil. Emigrar é de certeza a opção menos díficil, aposto que quem o fez nem pensou duas vezes. Primeiro porque pensar não é coisa que os encalhados façam, porque dá muito trabalho, e segundo porque acho que é óbvio ser facílimo tomar essa decisão.  (Já lá vão 20 likes!)

Eu, ao contrário de si, não me vou defender criticando a sua geração, senhor professor. Sabe porquê? Porque a minha irmã pertence à mesma que a sua e, dado o espírito pobre de pensamento que revelou com o que escreveu, não a posso pôr no mesmo saco que o seu. Seria um sortudo se eu o fizesse, aviso-lhe já. Mas isso seria incorreto, senhor professor, apesar de você o ter feito comigo. E quem ensina aqui é você e não eu, já viu? Mas, permita-me, e estou de braço no ar antes de falar mesmo que não me esteja a ver: com todas as baboseiras que disse (e não encontrei outro termo) demonstrou ser um revoltado acomodado ou um acomodado revoltado, não sei bem, que se vivesse há uns com as mesmas possibilidades que nós, faria muito pior que todos estes encalhados e até aposto que era daqueles que fazia like ao seu próprio comentário ou fotografia no facebook. Mas eu compreendo que o caminho mais fácil seja criticar os outros de modo a esconder os nossos falhanços pessoais, senhor professor, não se preocupe.

E outra coisa, senhor professor, se tem diariamente tantos jovens à sua frente devia tirar partido disso, sabia? Em vez de criticar, tente pelo menos durante um dia aprender alguma coisa com eles, nem que seja em que sites é possível encontrar a informação mais relevante ou interessante para si. Não é só por ter o rótulo de professor que tem o direito de não aprender com encalhados como eu, inferiores a si, senhor professor. Toda essa inveja subtil presa em cada frase que escreve revela, senhor professor, uma vontande escondida ou um gosto enorme em levar com ondas na tromba (já vi que é um grande apreciador de surf) e pertencer aos encalhados como eu que com tantos likes na foto do bikini se calhar chegam a ser menos encalhados que você, senhor professor.

Infelizmente, mesmo depois da sua tentativa de “lição”, eu não me identifico no grupo em que me inclui mas olhe, até posso aceitar. Porque sabe, acredito que haja muita gente da minha geração que é como descreve. Aliás, sei que há. Mas também sei, e lamento informá-lo senhor professor, que as há em todas as gerações. Sem exceção alguma. Pois, é verdade, senhor professor.

Lembre-se também que a informação disponível no Google é 50% boa e 50% má, (e muita dela, lamento dar-lhe esta novidade assim senhor professor, é criada por encalhados como eu!) por isso, se calhar tem de aprender a categorizar melhor a informação que procura/escolhe em vez de optar livremente por categorizar pessoas. E olhe, senhor professor, ainda bem que o Google ensina (por mais que tenha dado esse exemplo com teor negativo) e quem criou esse portal deve estar super contente com a quantidade de trabalho que se traduz também numa grande quantidade de dinheiro. Trabalho esse excessivo que até já deu muitas oportunidades de trabalho a tantos encalhados como eu. Estúpidos estes jovens, han? Em vez de estarem quietinhos em casa a jogar computador ou a atualizar estados de facebook, preferem ir trabalhar, não é senhor professor? E às vezes até para fora. Parvalhões.  (30 likes!)

E sim, senhor professor, o mais acertado em todas as suas palavras foi mesmo no ínicio, nem precisava de se ter dado ao trabalho de ter escrito mais: “posso estar a dar um tiro no pé”. Deu mesmo.
Boa recuperação, senhor professor.

* resposta ao artigo “Geração Encalhada”, disponível aqui: http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/10764/gerac-o-quotencalhadaquot

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