Já ninguém morre de amor. (*)

As pessoas gostam cada vez menos umas das outras. Todos os dias procuram motivos para abrirem novas guerras entre elas. Já ninguém morre de amores por ninguém. Já ninguém morre de amor, sequer. É uma morte demasiado parva para o tempo tão avançado em que vivemos.

Antigamente é que era tudo burro, sacrificavam-se uns pelos outros e não descansavam se o outro estivesse cansado. Ouvia-se coisas estapafúrdias como “Dava a vida por ti” ainda que dito sempre no passado como forma de subtilmente apagar o “eu até fazia” sem importar o “mas não faço”. Se calhar vivia-se menos tempo por isso mesmo, por se viver muito para os outros e demasiado pouco para si próprios.

Agora? Agora a esperança média de vida aumentou, vivemos cada vez mais anos ainda que com cada vez menos pessoas ao nosso lado, durante todos esses anos. Tem-se cada vez menos amores e há quem já pondere se é possível viver sem possuir um. O importante é preocuparmos-nos connosco sem importar com o que os outros se importam. Desde que toda a nossa vida se possua do que queremos, pouco importa o resto. Somos capazes de afirmar até não precisar de ninguém, mesmo que quando estejamos sozinhos nos apercebamos que nós é que não somos ninguém sem os outros.

Mas que importa? Com mais ou menos pobreza de espírito, vivemos, ou não? Por isso, que se lixe essa história do amor. Já ninguém morre de amores por ninguém.

 

 

 

 

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(*) btw, título de um dos meus livros preferidos de Freitas do Amaral.

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