a todos os filhos de pais sem cancro*

(ao meu pai)

Hoje é o dia mais feliz da minha vida.
eu que julgava que esse dia seria entre um pedido, um “sim”, vestido branco padrinhos madrinhas e convites, as inconsequências da vida trouxeram-me de uma forma mais apressada, uma bonança bem mais importante depois de uma tempestade bastante menos feliz.
hoje é o dia mais feliz da minha vida e apetece-me dizer a todos porquê.

No dia 19 de março, dia do pai, enquanto lhe dava o meu presente e lhe dizia, entre sorrisos, que ele era (é!) o melhor pai do mundo, ele agradecia-me ao mesmo tempo que me dizia, meio rouco, que lhe tinha sido diagnosticado um tumor (ou uma massa, como ele sempre preferiu dizer). no dia que era o dele, e de tantos outros pais melhores do mundo para tantos outros filhos, o meu passou-o no hospital a receber a pior notícia de todas.
“e agora??” – perguntei-lhe a medo.
“agora tenho que me tratar” – respondeu-me de imediato com uma tranquilidade assustadora.
“mas é de que tamanho? como é que isso se trata? é mau? está em mais sítios?”
as perguntas atropelavam-se umas às outras e o único desejo que manténs nesse momento é que essa p*** dessa doença não o atropele de maneira alguma, e não o deixe pelo caminho.
são precisas mais ou menos 4 semanas para se saber que tipo de tumor é, qual o tamanho que tem, se está ou não alojado, qual o tratamento adequado para o eliminar de vez e se existem ou não metástases para se perceber se está espalhado por mais partes do corpo.

4 semanas.

a todos os filhos de pais com cancro, vocês sabem, são as piores 4 semanas das nossas vidas. as piores do mundo. e do mundo todo. chora-se muito quando ficamos sozinhos, ficamos aterrorizados por haver uma maior possibilidade de ficarmos ainda mais sozinhos, grita-se muito e pergunta-se ainda mais vezes que muito “PORQUÊ?? PORQUÊ O MEU PAI E NÃO O EMPREGADO ESTÚPIDO E MAL EDUCADO QUE NOS ESTÁ A ATENDER NESTE RESTAURANTE? PORQUÊ?”
tenho a certeza que esta é a pergunta que todos os que passam por isto, fazem mais vezes.
e, se calhar, ainda que a bem (e ainda bem!), eu percebi um bocadinho porquê. percebi e aprendi que nada na vida é urgente, a não ser a saúde. por mais que já tivesse alguma noção, não há forma mais imediata de o percebermos como esta. aprendes que não vale de nada chateares-te com tudo, o que acaba por mostrar não interessar para nada.

Tal como os nossos pais não “conseguem” ver que crescemos, também nós não conseguimos ganhar consciência, por mais anos que passem, que os nossos pais envelhecem. que os nossos pais também ficam doentes, que os nossos pais também precisam de nós e que não somos só nós que precisamos deles. e em ambas as situações, tanto a deles como a nossa, isso acontece pelo mesmo motivo: não queremos. a única coisa que queremos é pensar que os teremos, durante toda a nossa vida, ao nosso lado. e eles a nós, ao lado deles.
não sei o que é perder um filho ou ter um medo constante de que isso aconteça mas infelizmente soube o que é pensar que se pode perder um pai. de um dia para o outro. e quando recebemos a notícia que o nosso pai tem cancro, o pensamento que surge imediatamente a seguir a ela é, inevitavelmente, que a possibilidade de o perdermos pode ser grande. e essa consciencialização absoluta de que a imortalidade não existe, nem para os nossos pais, sim porque eles merecem sempre mais que todos os outros, é o mais difícil de aceitar por mais que já tivéssemos nascido a aceitar a natureza das coisas da vida. dessas coisas da vida. e para desajudar, por mais que queiramos, não podemos fazer nada contra isso. e quase quase quase ninguém pode.

Quando os nossos pais têm cancro, nós “também temos”. temos dificuldade em adormecer no dia que antecede a quimioterapia dele, ficamos ansiosos e com medo (muito medo!). quando os nossos pais têm cancro é como se voltássemos a ter 3 anos, altura em que sentíamos um medo aterrorizador que nos abandonassem. é como não, é mesmo. quando ficamos em casa sozinhos com ele, vamos para a cama dele para termos a plena certeza de que dorme bem e que vai acordar novamente bem, e ao nosso lado. crescemos muito, e tornamo-nos pais dos nossos próprios pais por naquele momento eles estarem mais frágeis que nós e precisarem de nós mais do que nós precisamos deles. ter cancro é ter medo. todos os dias. e muito medo, mesmo. ter cancro é proibirmos a nossa mãe de quando não atendemos o telefone à primeira, não nos ligar mais duas vezes seguidas por termos medo do que nos poderá dizer quando ligarmos de volta. é saber que, mesmo contra a nossa própria vontade, hoje poderemos receber uma notícia menos boa mesmo que não seja de todo má. é adiar o fim do jantar para ficar mais tempo à conversa, mesmo que não se converse sobre nada. é procurar casos de sucesso dessa maldita doença para irmos a correr contar ao nosso pai. é esconder os casos de insucesso, também.

De março a setembro, confesso que fui muito menos trabalhadora, tive muito menos paciência (ainda menos), muito menos simpatia e sei que não dei muitas vezes o máximo porque, ao redor deste problema, tudo parecia mínimo. apeteceu-me muitas vezes mandar as pessoas a um sítio, mas muito rápido me apercebia que nada tinham a ver com este problema e, ao invés de uma asneira, largava um sorriso, algumas vezes falso, e dizia “está tudo ótimo e contigo?” irritei-me muitas vezes sozinha ao ouvir pessoas a queixarem-se que não podiam ir viajar, que não tinham dinheiro para pôr os filhos numa escola privada quando as públicas têm tantas ou melhores condições educativas, que se tinham chateado com o namorado porque ele nunca põe para baixo o tampo da sanita quando elas também nunca fecham os cereais. (esta última, por sinal, é-me muito familiar). mas também logo os desculpava ao pensar “antes disto eu era, mais ou menos, igual”. afinal, e no final, pára lá para pensar: que raio de problemas tens tu na tua vida, porra?
de março a setembro, apoiei uma amiga que durante a luta do meu pai, perdeu os dois, a mãe e o pai, com a mesma m**** de doença. e lembro-me que me disse no velório, entre lágrimas mas ainda assim alguns sorrisos, e mesmo sem saber pelo que eu estava a passar por não ter achado apropriado nem benéfico para ambas:
“f**** mariana, esta doença dá cabo deles. “e de nós” – acrescentou de imediato. e eu acenei com a cabeça, sem dizer nada, mesmo sem ela imaginar que eu concordava a 100% e que aquilo me estava a custar mais-que-sei-lá-o-quê. de março a setembro a minha mãe perdeu um grande amigo pelo mesmo. de março a setembro perderam-se muitos amigos, em muitos sítios. também pelo mesmo.
Mas foi também entre março e setembro que nunca vi o meu pai mal, a desistir, a querer deixar de fazer, de tentar, de rir e brincar, de trabalhar ou de fazer o que sempre fez. entre março a setembro ouvi o meu pai a dizer, no dia de anos dele, que era agora que ia testar se as mulheres preferiam os carecas. e foi por isso, por todos esses por issos e todas essas coisas que, entre março e setembro, pus na cabeça:
“bora lá fingir que está tudo bem, porque se o meu pai não pára não sou eu que vou parar. porque se o meu pai não fica mais tempo na cama, eu também não tenho que ficar. porque se o meu pai não chora (e nunca o vi chorar durante estes meses) eu também não posso chorar. e porque se o meu pai ri, eu também vou rir. eu sei que ele tem medo, eu também, a mãe, a mana, a avó a tia e o tio também. mas se o meu pai decidiu fazer frente ao medo, eu só tenho que fazer-lhe frente com ele.”
ouvir de alguém de quem nunca ouvi uma queixa, e mesmo que só o tivesse ouvido uma vez “isto custa muito, filhote”, é doloroso. pensares que além de o teu pai estar doente, ele vai sofrer, é ainda mais doloroso. pores na cabeça que a quimioterapia não é o problema mas sim a solução é difícil. é doloroso outra vez e durante muitos dias, principalmente os primeiros. mas é possível. eu pus.
“isto não é nada fácil, filhote.” –
tremi de medo depois dessa frase, e lembro-me perfeitamente do tom com que a disse e da cara que fez. dei-lhe um beijinho, disse-lhe que ia ficar bom num instante e saí do quarto. fugi, confesso. nunca sei muito bem o que dizer, prefiro que saibam que estou ali e que me procurem a seguir com esperança de que já não precisem de me procurar porque já tudo está bem. e ficou. e “já” está.

O meu pai cortou o cabelo antes da saga começar e, quando chegou ao pé de mim, disse-me num tom descontraído “gostas do meu novo look? pareço o Cristiano Ronaldo! muito mais jovem” e aí vês que realmente os homens nunca crescem. e que, doentes ou não, eles hão-de sempre sonhar o mesmo que um miúdo de 5 anos. eu ri-me em modo de concordância e orgulhei-me do espírito com que estava. deixou de poder beber o(s) seu(s) copo(s) de vinho à refeição e, a todo o custo, “caracóis e marisco nem vê-los!” – fê-lo prometer a médica. e ele cumpriu. e eu também cumpri quando, num dia menos bom de trabalho, prometi concordar com o que me disseram na casa-de-banho entre um choro incontrolável (há dias assim): “crescemos com a ideia de que o nosso pai é o mais forte lá em casa e é muito difícil habituarmo-nos que durante um tempo vamos ter que ser nós, não é? mas tu consegues miúda, não consegues? vais ter que ser ainda mais forte que ele” (como é que se é mais forte que a pessoa mais forte que conheces? – pensei)

De março a setembro evitei sempre dizer o nome dessa maldita doença, como se ao proferi-la ela se tornasse numa epidemia ainda maior. mas agora, e sem quaisquer lamentações ou remorsos, digo-te:
toma toma, quem morreu foste tu, cancro de merda.
hoje, passados 7 meses, o meu pai fez o último tratamento. hoje, passados 7 meses, sou a pessoa mais feliz do mundo porque o meu pai não tem mais isso.

Chamar casa ao Instituto Português de Oncologia soa-me mal mas sei que só os sítios a que chamamos de casa ou onde somos tratados como tal, nos devolvem a tranquilidade que temos na nossa. clap, clap, clap, muito obrigada!

A todos os filhos de pais sem cancro, peço-vos para que todos os dias deem valor ao pai que têm em casa, mesmo que por mais que me avisassem antecipadamente para fazer o mesmo, talvez isso não mudasse muito. eu vou continuar a ter o meu e hoje junto-me ao vosso grupo: aquele dos filhos de pais sem cancro :)

A todos os que pertencem ao grupo a que pertenci durante estes 7 meses, muita força e pensamento positivo. façam tudo o que estiver ao vosso alcance para melhorar a situação. sempre. (e sempre é mesmo sempre e tudo são muitas coisas!). ajuda muito. e mesmo que achem que as pessoas vos dizem “tudo vai ficar bem” só porque sim, acreditem que têm nelas toda a sinceridade e apercebam-se que provavelmente vocês, na mesma situação, diriam tal e qual o mesmo por não saberem mais o que dizer. ah, e a medicina chinesa também ajuda muito.

Um obrigada mais que especial à minha mãe, por ter aguentado muito muito bem o barco, mesmo sem saber como remar nesta altura nem nestes mares. e à minha irmã, por ter sido só aquilo que não se pede, e que é preciso em momentos iniciais mais desesperantes: uma irmã.

Hoje é o dia mais feliz da minha vida. porque o cabelo vai crescer, a alegria também e porque descobri que tenho um super-homem em casa, mesmo que não goste de usar capa nem as cuecas por cima do fato.

 

*não foi carcinoma, foi linfoma que, trocado por miúdos, tem o mesmo de bom – zero e o mesmo de mau – tudo.

2 thoughts on “a todos os filhos de pais sem cancro*

  1. Escreves lindamente. Mas nunca te esqueças que o Pai do “O EMPREGADO ESTÚPIDO E MAL EDUCADO QUE NOS ESTÁ A ATENDER NESTE RESTAURANTE” também pode ter cancro. Nunca, nunca se deseja algo assim a ninguém. E sabes porquê, não sabes?

    Beijinhos, continua a trabalhar lindamente.

    • Obrigada, catarina-que-não-sei-quem-és-mas-também-não-importa :)
      Não foi minha intenção desejar isso ao senhor do restaurante, de todo. Até porque depois de passar por algo assim não desejo nada semelhante sequer, a quem menos gosto.

      Obrigada pelos elogios.
      Assim continuarei.

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