porque é que gostas tanto de escrever?

uma vez perguntaram-me porque é que gostava tanto de escrever. e não sendo uma resposta muito fácil, ao mesmo tempo que a pergunta em si não traz consigo nada de muito difícil, respondi aquilo que odeio que me respondam, porque a preguiça física as vezes apodera-se de outras partes do corpo:
“porque sim”

o silêncio adjetivou uma conversa que parecia ter terminado, embora os pensamentos de ambas pudessem originar uma poesia solta, sem sentido algum. e como odeio sentir a injustiça das palavras, talvez mesmo por gostar tanto delas, acrescentei em tom de ‘bora-lá-voltar-à-conversa-que-tu-iniciaste:
“porque às vezes falar é mais difícil, percebes?” – disse eu a achar que lhe chegava.
mas não chegou:
“não” – respondeu-me de imediato. e agora era a minha vez de ficar à espera que continuasse. afinal de contas, ou de palavras, dei-lhe a narrativa para as mãos e o ‘parágrafo travessão abre aspas’ iniciava a frase que se supunha ser dela, num diálogo que tinha demasiada interação em tons de monólogo. mas a vingança da terceira pessoa pôs a primeira a abrir parêntesis como forma de compensar a fraca sentença inicial:
“às vezes as pessoas falam umas por cima das outras. outras não sabem sequer ouvir. e depois ainda há aquelas pessoas irritantes que concordam com o que dizes mas têm que falar mais alto e acrescentar coisas por terem ou acharem ter sempre algo mais importante que nós, ou por a vida delas necessitar sempre de um bold que deita abaixo o nosso fraco itálico.”
silêncio.

e continuei
“imagina. imagina que passa uma ambulância precisamente no momento em estás a dizer ao amor da tua vida que ele é mesmo isso: o amor da tua vida. e adivinha, ele não ouve. ou ouve, nunca saberás. e tu não repetes porque a medo achaste mesmo que ouviu, achaste mesmo que a sirene de emergência só tocou depois do final da tua frase e que é ele que não gosta suficientemente de ti para dar continuidade a esse sentimento. já imaginaste?!” – a esta altura eu já falava mais com os braços e com as mãos do que as minhas próprias cordas vocais e dava corda e corda quando, de repente, ela me dá o :
“então e se o amor da tua vida não souber ler?”

e voltava novamente o monólogo. enquanto ela olhava à espera de uma resposta, eu mexia a colher do café como se o café que já não existia pudesse de qualquer forma despertar em mim qualquer resposta rápida, como um combate à sonolência dos pensamentos no momento. a verdade é que nunca tinha pensado nisso, há realidades que achamos tão distantes que nem sequer as pomos em causa.
e ela, ao achar-me distraída, tentava a força tornar-se a primeira pessoa mesmo sem qualquer tipo de intenção de personagem principal: “e então, espertalhona, diz me lá: e se o amor da tua vida não soubesse ler? e se sempre que lhe quisesses dizer isso, que ele é o amor da tua vida, passasse uma ambulância em marcha de urgência? aliás, mil ambulâncias. como é que te safavas? ou, melhor, como é que safavas essa urgência desse amor? continuavas a escrever ao invés de preferires falar? de gritar para toda a gente essas letras que faladas também podem soar tão ou melhor que escritas?
“não” – respondi-lhe logo num tom de narrador que bate o pé para se tornar presente. mas ela não contente, acrescenta:
“não o quê?”
“se o amor da minha vida não soubesse ler, provavelmente eu não gostaria tanto de escrever”.
e enquanto digo isto, coincidência ou não, lá passa uma vez mais a chata da ambulância.
ela sorri. eu também. e até hoje não saberei se ouviu o que disse mesmo antes daquilo começar a tocar.
“olha, pode ser que leia.” – pensei eu.

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