Apaguei-te.

Apaguei-te.HR-e1421526907771
Ao contrário de todas as outras vezes, que pegava em ti e te rasgava até ao mais ínfimo papelinho.
(apaguei-te)
Percebi que
deitar-te fora era insuficiente,
(apaguei-te)
como se as palavras não morressem e te seguissem constantemente como o único destinatário válido.

Mandei deitar abaixo todas as paredes que testemunhavam o nosso amor, ouvi milhares de vozes em repeat como tentativa de esquecer a tua. Parti molduras com a esperança de que esse movimento tivesse o mesmo efeito em ti, que te desfizesse não por completo mas que te estilhaçasse lentamente. Queimei lembranças que registavam poses apaixonadas num click que só surgia depois de um “say loveee” como substituição do comum “say cheeeese”. Dei os lençóis ainda quentes do teu cheiro e do nosso amor, desejando por tudo que aquecessem quem mais precisa, por eu já não precisar mais de ti. Vendi todos os teus sapatos, mesmo que gastos de mentiras e de uma sola sem solo fixo. Ganhei dinheiro com isso para compensar de alguma forma todo o tempo que perdi contigo. Fiz o nó a todas as tuas gravatas enquanto pensava que o teu pescoço se encontrava ali no meio e não esquecendo a tua cara todas as manhãs enquanto dizias “dás-me o nó na gravata?”. Sem eu saber que enquanto isso ias dando nós no cérebro e num sentimento que, pelos vistos para ti, já não tinha ponta por onde se pegar. Fiz das tuas calças panos para a cozinha visto me ter rendido às tuas promessas de paninhos quentes, que agora me deixavam congelada e apática. Abri todas as janelas para que a tua presença desaparecesse, o teu cheiro fosse pelos ares. Aproveitava assim os teus ténis, que dizias comprar para ires correr ao fim- de- -semana, para segurar as portas e evitar que batessem com a corrente de ar. Afinal só querias correr comigo e, por isso, troquei a fechadura e atirei a chave por um penhasco abaixo, ao contrário dos apaixonados que as atiram ao rio como forma de bloquear um amor, daqueles sem dor. Dei um novo código ao meu coração, bloqueei-te o acesso, mudei a password do wifi e pedi por tudo que não te encontrasses em nenhuma rede próxima. Deixei também de te seguir no twitter, de modo a convencer-me que deixaria de te seguir na vida real e fiz dislike ao teu statuscomo forma de descontentamento com a vida.

Fi-lo para conseguir apagar da cabeça e do coração todas as noites que escrevia para ti e contigo. De quando desenhava a tua cara na almofada e te dava tronco e membros imaginários, quando não estavas, de modo a ignorar essa ausência real. Quando definíamos traços futuros de um futuro a dois que ansiávamos, também os dois, que se transformassem em três e rapidamente em presente. Desenhava a palavra amor nas tuas costas antes de adormecer e tu adivinhavas sempre o que tinha escrito. Queria esquecer todos os “quantos queres” de beijinhos que fazias diariamente, mesmo sabendo que o que me calharia nunca seria apenas um e que “nenhum” estava fora de questão. Queria esquecer a tua mentira repetida “Se algum dia te deixar será por me dares apenas 1/5 da cama” Mentiroso. Sabíamos ambos que qualquer monotonia associada a nós era esta, a das palavras. A da constante provação de um sentimento através delas, ainda que não só. Do recorrer constante ao nosso bloco A5 de promessas feitas obrigatoriamente a caneta para que nada as fizesse desaparecer. E para que nem ninguém as conseguisse apagar. A única regra era essa porque na verdade, quem precisa de regras no amor?
Escrevia-te todos os dias nesse mesmo bloco, perguntava-te infinitas vezes “Ficas comigo para sempre?” E tu a caneta, sempre a caneta, escrevias um sim vincado deste sentimento, de tal modo que por mais que eu quisesse escrever “não” nas folhas seguintes, o sim permaneceria sempre. Como que um género de lembrete a algo que dizias que não querias que eu esquecesse. Vivia tanto de palavras que me chegaste a perguntar: “Achas que se eu disser muitas vezes que gosto de ti isso é suficiente para que acredites?” E lembro-me de te responder que talvez me conseguisses convencer em parte mas que ao meu coração não, nunca o conseguirias convencer através de palavras.

Um dia acordaste mais cedo que eu, tomaste banho e vestiste-te incrivelmente sem fazer barulho. Engraçado que sempre que to pedia para fazeres, porque precisava daqueles 10 minutos a mais que tu, não conseguias. Eras incapaz de sair de casa sem que eu acordasse por deitares algo ao chão ou resmungares entre dentes por algo não estar a correr como querias ou por te aperceberes que tinhas sempre tempo insuficiente para conseguires sair de casa suficientemente bem apresentado.
Quando acordei tinha um recado na tua almofada, como substituto da tua presença. Agora ausente.
“Tive que sair. E não volto mais”
Cobarde. Chamei-te de tudo por teres sumido assim, como quem soma e segue. Ainda por cima tinhas usado o nosso bloco das promessas escritas para o escreveres. E a caneta, seu pulha!
Gastei tantas palavras neste amor que agora via-me sem nenhuma. Cobarde.

Por que deixaste correr tanta tinta de histórias, de promessas? Por que motivo não quebraste as páginas de modo a que mais ninguém conseguisse escrever nada em relação a este amor? Principalmente tu.

Dois meses depois ligaste-me.
Não atendi.
E escreveste-me através de um meio impessoal: Atende. É urgente.
Respondi-te de imediato: Costumavas dizer que a única coisa que para ti era urgente era o amor, seu cobarde.

Passaram dois anos. Nunca mais me respondeste, nunca mais me procuraste. E eu nunca mais te quis encontrar. Soube apenas que andavas pela Malásia e te encontravas dividido à procura da tua outra metade. (Bem feito!)

Apaguei-te.
Ao contrário das outras vezes, que pegava em ti e te rasgava até ao mais ínfimo papelinho
apaguei-te

E, se há coisa que a vida me ensinou, foi a escrever sempre a lápis.

[Texto inserido no projeto Dois Mil (http://www.doismil.pt/) – Uma imagem, mil palavras.]

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